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O Impacto da Legalização da Cannabis na Saúde Mental: O que 5 anos de dados no Canadá nos revelam

  • 30 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 31 de mar.

Por: Raisa Lucena Gaia


Após cinco anos de monitoramento (2018–2023) e uma análise rigorosa de 92.843 canadenses , o estudo da Universidade de Waterloo oferece uma visão detalhada sobre quem está consumindo cannabis e como os padrões mudaram.


O Perfil dos Consumidores

A pesquisa revelou que o uso de cannabis é significativamente mais comum entre certas faixas etárias e condições:


  • Idade: O consumo é mais elevado entre jovens de 16 a 25 anos (18,5% da amostra total) e adultos de 26 a 35 anos (21,1%).


  • Frequência: Cerca de 11,8% de todos os entrevistados ao longo das ondas da pesquisa relataram uso diário ou quase diário.


  • Histórico: Aproximadamente um terço dos participantes relatou ter tido algum problema de saúde mental nos 12 meses anteriores à pesquisa.


Mudanças Estatísticas: Antes vs. Depois

Os pesquisadores utilizaram a Razão de Chances Ajustada (AOR) para medir o aumento da probabilidade de uso após a legalização em comparação com o ano de 2018:


1. População sem problemas de saúde mental

Este grupo apresentou o crescimento mais consistente:


  • A probabilidade de terem usado cannabis nos últimos 12 meses saltou para uma AOR de 1.52 em 2019 e chegou a 1.58 em 2023.


  • O uso diário também subiu, com uma AOR de 1.34 logo no primeiro ano pós-legalização.


2. Ansiedade e Depressão

Houve um pico inicial, mas com nuances nos anos seguintes:


  • Ansiedade: O uso nos últimos 12 meses aumentou em 2019 (AOR = 1.33$) e permaneceu elevado em 2023 (AOR = 1.18$).


  • Depressão: O aumento em 2019 foi de AOR = 1.47$, estabilizando em 1.25 até 2023.


  • Uso Diário: Curiosamente, para quem tem ansiedade ou depressão, o aumento do uso diário só se tornou estatisticamente significativo em 2021 (AOR= 1.34$ e $1.37$, respectivamente), possivelmente influenciado pelo período da pandemia.


3. Condições Graves (Esquizofrenia, Bipolaridade e TEPT)


Os dados mostram que a legalização não alterou drasticamente o comportamento desses grupos:


  • Bipolaridade: Não houve mudança significativa na probabilidade de uso diário em nenhum ano pós-legalização em relação a 2018.


  • Esquizofrenia: Embora tenha havido um aumento pontual no uso nos últimos 12 meses entre 2022 e 2023 (AOR = 1.44$), não houve evidência de aumento sustentado a longo prazo.


O Peso da "Automedicação"

Um dado crucial para entender esses números é a percepção do usuário:


  • Quase metade (50%) dos canadenses que usam cannabis para fins médicos o fazem para tentar controlar a ansiedade e a depressão.


  • Além disso, cerca de metade dos consumidores acredita que a cannabis é "um pouco" ou "muito benéfica" para sua saúde mental.


Detalhes da Metodologia e Abrangência


  • Amostra Robusta: O estudo analisou um total de 92.843 respondentes ao longo de seis ondas anuais (2018-2023).


  • Critérios de Exclusão: Para garantir a precisão, foram excluídos 1.090 participantes que se recusaram a responder sobre sua saúde mental e outros 936 por falta de dados sobre escolaridade.


  • Representatividade: Os dados foram ponderados por idade, sexo, província, escolaridade e status de tabagismo para refletir fielmente a população canadense.


Dados Demográficos e Socioeconômicos (Média de todas as ondas)


A pesquisa estratificou os participantes para entender quem são os consumidores no cenário pós-legalização:

  • Gênero: A amostra foi equilibrada, composta por 50,3% de homens e 49,7% de mulheres.


  • Etnia: A maioria dos respondentes se identificou como branca (70,1%), seguida por sul-asiáticos (4,2%) e negros (4,1%).


  • Escolaridade: 31,8% dos participantes possuíam algum nível de faculdade ou universidade, enquanto 26,2% já haviam concluído o bacharelado ou superior.


  • Situação Financeira: Cerca de 30,7% dos entrevistados relataram que é "difícil" ou "muito difícil" fechar as contas no fim do mês (adequação de renda).


O Contraste entre Percepção e Evidência Científica

Um dos pontos mais críticos discutidos no estudo é a discrepância entre o que o usuário sente e o que a ciência demonstra:


  • Crença no Benefício: Aproximadamente metade dos canadenses que usam cannabis afirma que a substância é "um pouco" ou "muito benéfica" para sua saúde mental.


  • Riscos de Longo Prazo: Apesar da sensação de alívio temporário (automedicação), o uso regular está associado a sintomas de mania e hipomania em pessoas com transtorno bipolar.


  • Agravamento Clínico: Indivíduos que possuem transtorno bipolar e, simultaneamente, um transtorno por uso de cannabis (CUD), apresentam um curso da doença muito mais grave e complexo do que aqueles que não usam a substância.


  • Ideação Suicida: Existe "evidência moderada" correlacionando o uso pesado de cannabis ao aumento de incidências de ideação, tentativas e conclusão de suicídio.


Diferenças Regionais e de Diagnóstico


  • Limitação de Diagnóstico Profissional: O estudo observou que muitas pessoas que sofrem de transtornos mentais graves não possuem um diagnóstico oficial, o que pode levar a uma sub-representação em pesquisas baseadas apenas em registros clínicos.


  • Consistência dos Dados: As estimativas de prevalência de uso de cannabis do estudo (ICPS) foram validadas por serem altamente consistentes com as duas "padrões-ouro" das pesquisas nacionais do governo canadense (CCHS e CCS).


Conclusão Científica


Os dados indicam que, enquanto a legalização facilitou o acesso para o cidadão comum (sem histórico de transtornos), aqueles que já usavam a planta como forma de lidar com condições mentais severas não aumentaram seu consumo de forma desproporcional por causa da nova lei. Entretanto, as taxas de uso nesses grupos continuam sendo o dobro da média nacional, o que reforça a necessidade de monitoramento clínico contínuo.


 
 
 

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